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A esteatose ocorre devido à falha no metabolismo da gordura no organismo, que se acumula no fígado. A gordura produz inflamação e sua evolução pode causar fibrose, necrose, evoluir para a cirrose com insuficiência hepática e para o câncer. Desafio é descobrir a doença, já que é assintomática
Fatos relevantes:
- 3% dos pacientes com esteatose hepática evoluem para a cirrose. Dos pacientes com esteato-hepatite (inflamação no fígado), 8% chegam à cirrose. A cirrose pode levar a insuficiência hepática e requerer um transplante do órgão;
- a detecção da esteatose acontece em exames de rotina. Uma vez comprovada a presença da gordura no fígado, é preciso promover mudanç a no estilo de vida: dieta equilibrada, atividades físicas e a investigação do distúrbio metabólico que alterou o metabolismo de gordura, evitando sua evolução;
- 48% dos portadores de Hepatite C têm esteatose. Pacientes transplantados apresentam reincidência de cirrose em 60% e 30% voltam a ter esteato-hepatite (inflamação), portanto devem ter acompanhamento e cuidados redobrados.
Tags: esteatose hepática, esteato-hepatite, cirrose hepática, carcinoma no fígado, transplante
São Paulo, julho de 2010 - Cirrose hepática é uma complicação própria de quem usa e abusa de bebidas alcoólicas. Certo? Sim, mas isso não revela tudo sobre a doença. Há cerca de cinco anos, os médicos começaram a se preocupar com outro tipo de problema muito semelhante que pode levar à cirrose, insuficiência hepática e até ao câncer de fígado: a Esteatose Hepática. Estima-se que 3% da população mundial seja portadora desta nova doença, ou seja, aproximadamente 180 milhões de pessoas. No Hospital 9 de Julho, em São Paulo, em 2007 e 2008, foram diagnosticados 45 casos de cirrose e 28 casos de neoplasia maligna do fígado.
Assintomática, a esteatose nada mais é do que uma doença que leva ao acúmulo de gordura no fígado não relacionado ao consumo de álcool que, se não diagnosticada, pode levar a inflamações (esteato-heapatite), fibrose do tecido, necrose, chegar a cirrose hepática, insuficiência renal e até mesmo ao carcinoma ou câncer no órgão que é fundamental para a vida humana, pois é responsável pela produção proteína, fator de coagulação, hormônios, metabolismo dos hormônios etc. Isso leva a uma situação que incompatível com a vida.
De acordo com a hepatologista do Hospital 9 de Julho, Dra. Maria de Lourdes Lopes Capacci, até pouco tempo atrás a esteatose não era levada em consideração pelos médicos, pois não se conhecia seu potencial evolutivo. E nem suas causas, que estão relacionados a vários fatores conjuntos, alguns característicos da vida moderna como alimentação desequilibrada, obesidade e sedentarismo.
Entre os portadores da esteatose, mais de 70% são obesos, mais de 75% são diabéticos e 20 a 80% dos pacientes têm dislipidemia (aumento dos lipídios, colesterol total, triglicerídeos). Apesar de ter a obesidade com uma das causas, a esteatose é uma doença metabólica e pode acometer inclusive crianças e pessoas aparentemente magras (com IMC-Índice de Massa Corpórea normal). Um dos fatores principais da esteatose é a resistência à insulina, pois faz o fígado captar mais gordura e reduz a metabolização da gordura no corpo todo, deixando-a acumulada. Além disso, promove a lipogênese hepática, ou seja, além de acumular, o fígado passa a produzir mais gordura. Tudo isso serve como substrato para o estresse oxidativo, que é o mecanismo que promove lesão nas células. "Hoje se sabe que um tecido gorduroso é capaz de provocar inflamação e a descoberta desse mecanismo é recente", comenta a Dra. Maria de Lourdes.
Fatores de risco da esteatose - Há alguns casos em que se deve suspeitar de esteatose hepática. Uma delas é na síndrome metabólica, caracterizada por vários problemas que ocorrem ao mesmo tempo: obesidade, diabetes tipo 2 e dislipidemia (colesterol e triglicérides alterados). Pessoas que usam algumas drogas como os corticóides, por exemplo, ou que passam por quimioterapia, têm a função hepática alterada e podem desenvolver a doença. Há ainda causas genéticas como a lipodistrofia, assim como maior risco em pessoas que trabalham com os derivados do petróleo.
A doença está associada ainda ao vírus da Hepatite C, de modo que 48% dos pacientes portadores da doença têm esteatose. Por fim, as cirurgias bariátricas (by-pass ou gastroplastia), indicadas para a perda de peso necessitam de acompanhamento para que a perda seja gradual, senão podem sobrecarregar o fígado, prejudicando o tecido do órgão e produzir inflamação. O ideal é que a pessoa perca 10% do peso ao logo de seis meses.
Geralmen te, os grandes parceiros dos hepatologistas no diagnóstico da esteatose são endocrinologistas e cardiologistas, pois são os que tratam de hipertensos, diabéticos e obesos, com risco aumentado para a esteatose. A detecção ocorre geralmente em exames de rotinas, como os check ups. Uma vez detectado o acúmulo de gordura no fígado é preciso agir. Se o médico não se sentir preparado, pode encaminhar para um especialista.
Uma vez diagnosticada a esteatose, o que fazer? - A principal medida é promover a mudança no estilo de vida, com controles das condições associadas (diabetes, obesidade, pressão alta, gordura elevada no sangue). É importante também investigar se o paciente está tomando algum medicamento que influencie, se fez quimioterapia ou passou por uma cirurgia bariátrica. "Quando não é possível fazer esse controle, com perda de peso, o médico pode até mesmo recomendar uma cirurgia bariátrica", comenta. Em último caso, se o paciente já apresenta uma lesão muito avançada, há indicação para o transplante hepático.
A recomendação é evitar o sedentarismo, a dieta muito gordurosa, fazer atividade física para que, além de perder peso, o paciente aumente a massa magra, como os músculos, por exemplo. Em termos de atividade física, o ideal é fazer atividades aeróbicas pelo menos três vezes por semana, de 20 a 30 minutos, segundo recomendação da Organização Mundial da Saúde - OMS.
A dieta precisa ser pobre em refinados e açúcares e rica em fibras deve ser adequada de acordo com o perfil metabólico do paciente (se possui glicemia alta, ou se é hiperlipidêmico, por exemplo, a dieta deve ser específica). A redução de peso ideal é de um a dois quilos por mês, ou 10% do peso total no decorrer de seis meses. "O emagrecimento rápido pode promover piora histológica (do tecido), com o agravamento da inflamação", explica.
Como tudo o que se faz em termos de mudança de hábito, é difícil fazer o paciente manter a aderência. Segundo a Dra. Maria de Lourdes, em apenas cerca de 1/3 dos pacientes é possível conseguir algum tipo de resultado. "Muitos casos, os resultados são de curto prazo, o que prejudica o tratamento", comenta.
Pacientes transplantados requerem cuidados redobrados - Outro cuidado é com relação aos pacientes transplantados. Se não houve mudança de estilo de vida, a reincidência da cirrose no fígado transplantado gira em torno de 60% dos casos. "O desenvolvimento de uma doença hepática gordurosa não alcoólica é ainda mais grave em fígados transplantados", alerta a médica. Acredita-se que 30% dos transplantados voltam a ter esteato-hepatite (inflamação) e 12% voltam a evoluir para a cirrose. "Na prática clínica é importante que esses pacientes sejam estudados e acompanhados, com orientações para mudança de comportamento a respeito dos fatores de risco, sempre de forma individualizada", comenta.
Diagrama da evolução da esteatose no fígado
Fígado com esteatose -> fígado inflamado -> hormônios que interligam para causar várias alterações -> formação da fibrose (desorganização com cicatrização do tecido) -> necrose -> cirrose -> presença de tumor (esse processo demora anos para se concretizar, por isso a importância de descobrir a esteatose para evitar sua evolução).
Fonte: Hospital 9 de Julho - Fundado em 1955, em São Paulo, o Hospital 9 de Julho tornou-se referência em medicina de alta complexidade e tem focado seus investimentos no atendimento de traumas e na criação de Centros de Especialidades (Oncologia, Dor e Neurocirurgia Funcional, Gastro, Coluna, Rim e Medicina do Exercício e do Esporte).o a importância de descobrir a esteatose para evitar sua evolução).
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