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As Igrejas Evangélicas Fundamentalistas
O APARECIMENTO DO PRÉ-MILENARISMO E DO DISPENSACIONALISMO
No advento do fundamentalismo, o pré-milenarismo desempenhou um papel significativo na união de pessoas cujas opiniões divergiam bastante entre si.
A igreja sempre creu na volta de Jesus (a Segunda Vinda); os pormenores é que geravam discussões.
Apocalipse 20.2 diz que Satanás ficará preso durante mil anos. A maioria das igrejas defendiam o conceito amilenarista – não haverá nenhum período literal de mil anos Satanás no qual será preso para que Deus opere mediante a igreja a fim de levar a efeito o Reino da paz sobre a terra.
O pré-milenarismo, por contraste, é a crença de que Jesus voltará e instituirá um Reino literal de mil anos sobre a terra. A maioria dos pré-milenaristas acredita que esse reino será antecedido pela apostasia generalizada, por guerras, fomes e terremotos, pelo aparecimento do anticristo e por um período de tribulação. Embora Cristo reine durante o milênio, no fim haverá um combate, a batalha do Armagedom: Cristo e seus santos combaterão os que se rebelaram contra ele.
A partir de meados de 1870, os evangélicos organizaram conferências a fim de estudar a Bíblia, especialmente as profecias. Essas conferências, bem como os escritos dos preletores defendiam a visão pré-milenarista. Elas tiveram sucesso iminente e ajudaram a tornar o pré-milenarismo uma crença fundamental. Na Conferência de Niágara (New York), em 1898, foi adotada uma declaração de fé que era, nos pontos essenciais, idêntica aos cinco temas adotados pela Assembléia Presbiteriana, exceto no último item (a realidade dos milagres), substituído pelo retorno de Cristo para o Reino milenar.
Entretanto, alguns adotaram outras subdivisões e deram ao dispensacionalismo. Trata-se de um sistema teológico que divide o tempo em sete períodos ou dispensações, que são etapas da revelação progressiva de Deus. A questão principal no dispensacionalismo é que, na era da igreja, o plano de Deus para os judeus é diferente do projeto que tem para a igreja. Assim, os judeus passarão pela grande tribulação e se voltarão para Cristo durante esse período, ao passo que a igreja será arrebatada antes da tribulação. No fim, judeus e gentios, lado a lado, comparecerão diante de Deus.
O sistema dispensacionalista foi desenvolvido por John Darby, líder dos Irmãos de Plymouth. Darby afirmava que o arrebatamento ocorreria antes da tribulação e suas idéias dividiram os Irmãos de Plymouth, mas elas migraram para os Estados Unidos na década de 1870 e foram divulgadas nas conferências. O dispensacionalismo firmou-se depois de C.I. Scofield publicar a Bíblia de Referências Scofield em 1909. Essas anotações demonstram detalhadamente como funciona o sistema dispensacionalista. Sua obra despertou um interesse generalizado, e ainda é muito procurada. Em 1924, foi fundado o Seminário Teológico de Dallas com o propósito espacífico de treinar homens na teologia dispensacionalista.
O FUNDAMENTALISMO
Redes informais de comunicação foram desenvolvidas a partir das conferências bíblicas, por meio de livros e panfletos de editores como Fleming H. Revell (cunhado de Moody, que fundou sua casa publicadora em 1870) e por meio das muitas escolas bíblicas que foram estabelecidas. A certa altura, havia centenas delas, das quais muitas desapareceram sem deixar sinal e outras ainda existem – por exemplo, o Instituto Bíblico Moody (1886) e o Instituto Bíblico de Los Angeles (1908; atualmente Universidade Biola). O âmago do currículo dessas escolas consistia na Bíblia e na teologia, enfatizando a inerrância das Escrituras e o pré-milenarismo.
Depois, entre 1910 e 1915, um grupo de homens publicou um conjunto de doze pequenos volumes chamados The Fundamentals (Os fundamentos), para os quais contribuíram calvinistas da “velha escola”, como B.B. Warfield, e dispensacionalistas como C.I. Scofield. Esses panfletos articulavam as verdades e valores básicos da fé cristã e foram enviados gratuitamente pelo correio a mais de 300 mil pessoas. Vários grupos e denominações redigiram listas das doutrinas essenciais da fé, e todas continham a inspiração da Bíblia, a expiação vicária e a ressurreição de Cristo.
O termo “fundamentalista” foi cunhado em 1920 para designar os que estava dispostos a “batalhar pelos fundamentos de fé” contra o modernismo teológico. A palavra passou a ser um distintivo de honra para os que pertenciam ao movimento, e um termo pejorativo para outros, especialmente depois do caso Scopes, em 1925. Até então, o movimento fundamentalista avançara a passos largos e estava para se tornar uma força poderosa na vida e na cultura religiosa dos Estados unidos, mas o caso Scopes arruinou quaisquer esperanças que os fundamentalistas tivessem de destronar os modernistas. O veredicto permitiu que o evolucionismo darwinista fosse ensinado nas escolas americanas.
O fundamentalismo acabou se polarizando em dois grupos rivais: o fundamentalismo “fechado” ou “separatista”, que enfatizava a separação, não somente dos não-cristãos, mas também dos cristãos que não concordavam com eles em todos os pormenores, e o fundamentalismo “aberto”, que seguia uma orientação mais positiva e tinha mais interesse em ganhar o mundo para Cristo. O primeiro grupo fazia da separação (até mesmo de outros cristãos ortodoxos com os quais não concordassem plenamente em todos os pormenores) a principal exigência imposta a seus membros; o segundo era mais receptivo, e optava por cooperar com grupos que adotassem a ortodoxia básica, com o intuito de alcançar alvos evangelísticos de maior porte. Esse segundo grupo são os evangélicos de nossos dias.
O EVANGELICALISMO CONTEMPORÂNEO
Na Grã-Bretanha, o evangelicalismo não vivera as mesmas circunstâncias que seu equivalente americano. Era mais aberto e acadêmico. Durante as décadas de 1940 e 1950, no entanto, firmou-se nos Estados Unidos o movimento que lutava por um evangelicalismo mais aberto e intelectualmente fundamentado (Muitos fundamentalistas separatistas eram nitidamente anti-intelectuais e entendiam que qualquer tipo de treinamento acadêmico era, na melhor das hipóteses, perda de tempo, e na pior delas, um instrumento nas mãos do Diabo para desviar a igreja). Esse movimento é freqüentemente chamado neo-evangelicalismo para distingui-lo do evangelicalismo antigo, menos aberto e avesso ao intelectualismo. Homens como Harold Ockenga, Carl F.H. Henry e Francis Schaeffer, escolas como o Seminário Fuller (fundado em 1947) e publicações como, Christianity Today (1956) avançavam em direção à abertura quanto às questões sociais e os problemas do mundo contemporâneo. Um livro que era um apelo à participação evangélica nas reformas sociais tornou-se referencial: The Uneasy Conscience of Modern fundamentalism (A consciência inquieta do fundamentalismo moderno)(1947), de Carl Henry.
Nas últimas décadas, o evangelicalismo criou suas estruturas de apoio: editoras, livrarias, gravadoras, circuitos de concertos e de preleções e suas próprias versões das Escrituras, tais como a Bíblia Viva, a Nova Versão Internacional e a NASB (nova Versão Padrão americana).
IGREJAS NEGRAS E BRANCAS
A partir do fim do século XIX e durante o século XX, as igrejas negras floresceram nos EUA principalmente no Sul. Dificilmente os africanos levados à força para os Estados Unidos e vendidos como escravos abraçariam a religião de seus opressores. Assim que chegavam, porém, eram imediatamente instruídos ao cristianismo (especialmente, e repetidas vezes, quanto à exortação de Paulo: “Escravos, obedeçam a seus senhores terrenos com respeito e temor” [Ef. 5.6]) e deliberadamente mantidos no analfabetismo. A parte da Bíblia que lhes falava mais diretamente eram os evangelhos. Assim, com o passar dos anos, desenvolveu-se um cristianismo baseado na realidade dos negros.
Enquanto as igrejas brancas tendiam a ser teológicas e focalizavam questões como a justificação e a expiação, as igrejas negras extraíam forças do Cristo que viera libertar, curar e restaurar. Para a maioria das igrejas brancas, as epístolas do NT, especialmente de Paulo, eram de principal importância. Quanto às igrejas negras, os evangelhos eram sua linha vital de comunicação com Deus, que na pessoa de Jesus viera postar-se ao lado deles, sendo que só ele conhecia as “tribulações que passavam” e os levaria à praia celestial, à vida eterna. Depois da Guerra Civil, quando, quase na virada do século XIX, a Corte Suprema articulou a doutrina de “separadas, porém iguais” para as escolas, as leis segregacionistas pareciam ter afetado as igrejas, de modo que elas também ficaram separadas. No século XIX e no início do século XX, as denominações brancas fundariam igrejas negras sob a condição de estas permanecerem separadas e, mais tarde, as igrejas negras fundaram suas denominações.
Em tempos recentes, os evangélicos negros e brancos passam a escutar com sinceridade seus irmãos na fé e estão descobrindo que essas diferenças são, com efeito, dois aspectos necessários do evangelho. Cada grupo precisa dos aspectos fortes do outro, e devemos ajudar uns aos outros em nossas fraquezas.
AS IGREJAS TRADICIONAIS
Até a última parte do século XIX, as denominações históricas eram os depositários inquestionáveis do evangelho. Os motivos históricos das distinções entre elas continuavam relativamente claros. A lealdade denominacional era a norma, e as instituições de educação superior tinham, na sua maioria, estreitos vínculos com a igreja.
Os problemas começaram quando as teorias da alta crítica, provenientes da Europa, infiltraram-se nas universidades e seminários americanos. Por algum tempo, as novas idéias permaneceram no âmbito acadêmico, embora escolas superiores tais como a universidade de Chicago (batista) acolhessem totalmente essas teorias modernas. A crise surgiu quando numerosos clérigos treinados nessas instituições começaram a ocupar os púlpitos a partir da década de 1880. Eles obtiveram preponderância em suas denominações ou associações e passaram a alocar verbas para empreendimentos considerados ímpios pelos conservadores.
Algumas instituições, entretanto, reagiram contra a abordagem moderna, e entre elas se destacou o Seminário Teológico de Priceton (presbiteriano), onde teólogos como B. B. Warfield e Charles Hodge apresentaram uma defesa consistente e academicamente respeitável da Bíblia conforme tradicionalmente entendida. A defesa girava em torno de cinco temas principais: 1) a inerrância da bíblia; 2) a concepção virginal; 3) a expiação que Cristo fez pelo pecado; 4) a ressurreição de Jesus dentre os mortos; 5) a realidade dos milagres.
Mais tarde, porém, Princeton também aderiu ao modernismo, de modo que os membros conservadores do corpo docente fundaram o Seminário de Westminister na Filadélfia (1929). J. Gresham Machen era seu principal porta-voz e se envolveu, não totalmente por gosto, na controvérsia entre os modernistas e os fundamentalistas.
Generalizando, podemos dizer que, durante o século XX, as igrejas tradicionais entraram em declínio paulatino à medida que seus membros mais conservadores se retiravam para fundar novas igrejas, associações e denominações.
A IGREJA CATÓLICA ROMANA
A Igreja Católica Romana nos Estados Unidos obteve destaque imediatamente após a Segunda Guerra Mundial graças ao bispo J. Fulton Sheen, que empregou seu talento em retórica e em didática nos programas de televisão e em livros que pessoas medianas podiam entender. Seu ministério ajudou a preparar o caminho para um evento impensável poucas décadas antes: a eleição de um presidente católico – John Fitzgerald Kennedy.
A resposta mais relevante às tendências culturais do século XX, entretanto, veio da parte do papa João XXIII, que convocou um concílio, o vaticano II (1962-1965), que levou a efeito mudanças drásticas na igreja.
O Vaticano II foi convocado também para encorajar a unidade cristã. Depois da segunda Guerra Mundial, enquanto o movimento ecumênico se desenvolvia entre os protestantes tradicionais, os católicos começaram a abrir canais de diálogo sérios com os luteranos e com outros grupos protestantes, que a partir do Vaticano II passaram a ser chamados em lugar “irmãos separados” ao invés de “irmãos cismáticos”.
Havia ainda outras razões: promover a paz e a justiça social no mundo, revitalizar a vida cristã dos fiéis, mudar a prática eclesiástica e ajudar a igreja a lidar com a vida moderna. O laicato tornou-se mais importante; os leigos receberam permissão para participar na celebração da missa, não mais feita em latim, mas no idioma do povo. A leitura individual da Bíblia passou a ser encorajada, bem como a liberdade no estilo litúrgico.
Os papas e a igreja mantiveram o celibato e o controle da natalidade, bem como sua posição quanto ao purgatório, à veneração de Maria, à infalibilidade papal e à transubstanciação. Mesmo assim, a igreja Católica Romana tem se esforçado em direção ao ecumenismo desde a segunda metade do século XX e se ocupado em empreendimentos cooperativos com evangélicos e fundamentalistas no tocante a questões de interesse mútuo, tais como a oposição ao aborto e às práticas homossexuais.
Da mesma forma que as denominações tradicionais, a Igreja Católica Romana também administra conflitos internos entre as interpretações conservadoras e mais liberais da Bíblia e da tradição. Existem católicos cuja teologia é praticamente indistinguível da teologia evangélica. Além disso, o movimento carismático rompeu as linhas divisórias teológicas à medida que o Espírito Santo começou a operar na igreja católica, criando um tipo de união com outros cristãos que jamais seria conseguido mediante debates teológicos.
* Fonte: Manual Bíblico de Halley Edição revista e ampliada / Nova versão internacional Editora Vida
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