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A crescente visibilidade do homossexualismo é um fenômeno específico da civilização ocidental
Dom, 10 de Maio de 2009 12:10

Entrevista da Revista Ultimato com Uriel Heckert (psíquiatra e membro da diretoria do corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), do qual é um dos fundadores) e Robinson Cavalcanti (cientista político e bispo da Diocese Anglicana do Recife) - A crescente visibilidade do homossexualismo é um fenômeno específico da civilização ocidental

 

Psiquiatra diz que “a força libidinal é capaz de driblar a nossa racionalidade e vontade”, e bispo anglicano acrescenta que “todos temos possibilidades heróicas e possibilidades destrutivas”

Eles têm praticamente a mesma idade (62 e 63 anos), são evangélicos (um é presbiteriano e o outro, anglicano). Desde a juventude estão publicamente comprometidos com a missão integral do evangelho e apóiam a Aliança Bíblica Universitária (ABU). Ambos foram professores universitários. Mas um vive na região Sudeste (Juiz de Fora, MG) e o outro, na região Nordeste (Olinda, PE). Uriel Heckert é psiquiatra e membro da diretoria do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), do qual é um dos fundadores. Robinson Cavalcanti é cientista político e bispo da Diocese Anglicana do Recife. Ultimato reúne as duas vozes nesta entrevista.

Ultimato — O dualismo filosófico e o maniqueísmo religioso distinguem e contrastam eros e ágape. Dizem que o primeiro é o amor profano, carnal e pecador, e o segundo é o amor sagrado, angelical e santo. Essas idéias, que exerceram forte influência sobre o cristianismo, especialmente nos terceiro e quarto séculos, já foram totalmente extirpadas do pensamento cristão?

Robinson Cavalcanti — Desde que Alexandre, o Grande chegou à Índia, a Grécia foi influenciada por conceitos emanados do bramanismo, inclusive o dualismo entre uma matéria “má”e um espírito “bom”, o que abre caminho para os excessos ora de permissividade, ora de repressão. O pensamento cristão foi fortemente influenciado por esse dualismo. Um exemplo de propagador desse dualismo foi Agostinho de Hipona. Daí a expressão “síndrome de Santo Agostinho”, usada em referência a cristãos (especialmente pastores) ex-devassos, que após a conversão se tornam obcecados pelo combate à “carne”, priorizando o aspecto sexual e julgando que todos os outros cristãos passam por experiência como a sua. Reconciliar ágape e eros é uma tarefa teológica urgente para a saúde espiritual e emocional da Igreja. Por outro lado o puritanismo tardio que marcou a formação dos Estados Unidos, hoje com seus extremos chega até nós.

Ultimato — O movimento gay transmite a impressão de que os homossexuais praticantes são muito numerosos. Seria verdade?

Uriel — As estatísticas confiáveis nunca apontam taxas maiores que 5% de homossexuais entre a população masculina, e as taxas entre as mulheres são sempre menores. A própria pesquisa de A.C. Kinsey (1948), insistentemente tomada como referência, apontou apenas 4% de indivíduos exclusivamente homossexuais. Além disso, é preciso considerar que a sua amostra foi deformada pela inclusão de presidiários e abusadores sexuais. Mesmo assim, trata-se de uma população considerável, digna de atenção às suas características e necessidades.
Robinson — As pessoas com inclinação homoerótica são uma minoria e os seus praticantes, um número ainda mais reduzido. Pesquisas indicam algo entre 1% e 3% no Ocidente hoje, dependendo do contexto rural ou urbano, isolado ou cosmopolita, de culturas tradicionais ou de culturas em processo de mudança, além da legitimação ou não do comportamento.

Ultimato — O homossexualismo sempre existiu, mas talvez em nenhuma outra época estivesse tão em pauta como hoje. O que há de novo na questão? Que desafios esta situação representa para os cristãos?

Uriel — A crescente visibilidade que a questão homossexual alcança é um fenômeno específico da civilização ocidental. Tal fenômeno não é admissível em vastas regiões da Ásia e da África, sob influência das leis islâmicas e de outras tradições culturais. Vários fatores contribuem para que ocorra essa exposição contínua sobre o tema:

1) o movimento de contestação social surgido no Ocidente nas últimas décadas do século 20, com ênfase crescente na busca do prazer (hedonismo);
2) a crise de valores que se instaurou na sociedade, deixando pais, educadores e legisladores atônitos e sem referências;
3) a disseminação de informações e imagens, permitindo expressão a comportamentos de grupos minoritários;
4) políticas públicas afirmativas que privilegiam as minorias, sobretudo quando em condição de discriminação e desvantagem;
5) confluência de diversas tendências políticas numa agenda ampla de “desconstrução” do que se tem como poder e saber instituídos. A tudo isso se soma a organização de grupos de interesse, que têm um projeto claramente definido e bem articulado, capaz de reunir ativistas desprendidos e com forte ardor proselitista. Tal movimento vale-se, na verdade, de valores oriundos do cristianismo, tais como o respeito à liberdade e aos direitos da pessoa humana, para lutar por uma nova sociedade baseada em princípios duvidosos e até declaradamente anticristãos.

Robinson — O século 20 enterrou utopias globais totalitárias, como o nazismo e o comunismo. Com o “fim da história” e das alternativas de vida, o capitalismo se impôs como “pensamento único”, o que concorre para o aumento da violência, da fuga (pelas drogas ou por religiões alienantes) e para as microutopias do politicamente correto. Entre elas está a glorificação do homossexualismo como um minoria organizada, articulada e que ocupa espaços nos meios de formação de opinião: mídia, artes, academia.

Ultimato — A professora Edith Modesto, da USP, fundadora do Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), hoje Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais (www.gph.org.br), depois de acurada investigação, entende que a homossexualidade não é uma opção. Os senhores concordam?

Uriel — Falar em opção sexual sugere a possibilidade de uma reflexão mais ou menos consciente, seguida de uma escolha. Na verdade, a força libidinal tem sua dinâmica e é capaz de driblar a nossa racionalidade e vontade. O desejo sexual surge, para alguns, direcionado para pessoas do mesmo sexo e é sempre desejável que ele seja reconhecido e admitido com clareza. O que fazer com tal desejo, isto sim, envolve posicionamento e decisão pessoal. No entanto, falar em orientação homossexual, como hoje se prefere, pode também ser inadequado por insinuar uma aceitação passiva e definitiva. Estudos têm mostrado que, em muitos casos, é possível mudar a inclinação sexual.
Robinson — Todos os seres humanos nascem com “defeitos de fabricação”, fruto do pecado, e ao mesmo tempo mantêm os traços positivos da imagem de Deus. Todos, nessa ambigüidade moral, temos possibilidades heróicas e possibilidades destrutivas. Há a inclinação para algo condenado por Deus, o que chamaríamos de tentação. Todos são tentados todos os dias, em diferentes áreas. Cada um tem sua “fraqueza de estimação”. Mas o ser humano é dotado de razão, sentimento e vontade, e, portanto, de capacidade de escolha. Todo comportamento — apesar dos condicionamentos —, em última análise, é fruto de uma opção.

Ultimato — O que os pais podem fazer para evitar que seus filhos tenham tendências homossexuais?

Uriel — Em nossos dias, as discussões sobre a homossexualidade concentram-se no campo político e dos direitos humanos. Alguns evocam teorias biológicas claramente insuficientes, buscando justificativas genéticas ou constitucionais para a questão. Entretanto, o papel das influências ambientais e educacionais, sobretudo a partir das relações fundamentais com os pais e pessoas significativas, não podem ser desprezadas. Verifica-se uma tendência a negligenciar as teorias psicológicas sobre a homossexualidade; por isso, cito o neurocientista Eric R. Kandel: “A observação de Freud e de outros analistas de que alguns homossexuais tendem a lembrar seus pais como hostis ou distantes e suas mães como mais próximas que o comum têm tido confirmações recentes”.
Robinson — Nenhuma família pode evitar que um filho ou uma filha se desvie para uma conduta pecaminosa. A família ajustada, estável, funcional, piedosa, cultivadora de valores, será, claro, um espaço onde o bem será fomentado. O estudo, o trabalho, o esporte, o lazer, a cultura, a religião, são variáveis positivas. Mas cada um fará a sua livre escolha. Por exemplo, uma família ideal pode ter cinco filhos expostos à mesma experiência, e cada um deles seguir caminhos diferentes.

Ultimato — Quando se tem filhos homossexuais, como conciliar o amor paternal e a fidelidade aos princípios bíblicos?

Uriel — Não há resposta fácil. A parábola do filho pródigo nos dá algumas pistas: tolerância, desprendimento, apesar das atitudes inconcebíveis tomadas pelo filho; espera, paciência, acolhimento, quando houve atitudes sensatas. Uma citação de Fernando Gabeira parece-me oportuna: “É tão difícil mudar os homens como aceitá-los tais como são; mais difícil ainda é fazer ambas as coisas.”
Robinson — Amor e valores, amor e exemplo, amor e disciplina andam sempre juntos. Os pais não devem se condenar ou rejeitar o filho ou a filha que opte pelo homossexualismo, embora devam ser sinceros quanto ao seu desapontamento e sofrimento, com a reafirmação dos seus valores e com orações pela santidade, como faria com outros problemas.

Ultimato — A moral cristã exige que o heterossexual negue-se a si mesmo quando é tomado pelo desejo de usufruir do sexo fora do casamento. A mesma ética exige também que uma pessoa que sinta desejos homossexuais negue-se a si mesma, tanto fora como dentro de um relacionamento estável. Quem tem mais dificuldades para manter-se dentro dos padrões éticos: o hetero ou o homo?

Uriel — Há sempre uma tensão entre desejo e realidade. Processos educativos, socioculturais e éticos modelam a personalidade individual, permitindo adequar os impulsos às suas finalidades e às necessidades da vida em sociedade. Todos, igualmente, experimentam desafios nesta questão. A simples negação ou repressão do desejo não é desejável. A sua expressão, contudo, precisa afinar-se a objetivos, conveniências, princípios e valores, para o bem da própria pessoa e dos demais. A maturidade psíquica implica lidar satisfatoriamente com a própria sexualidade, o que é sempre um desafio.
Robinson — O apóstolo Paulo afirma que não conseguia fazer o bem que desejava e acabava fazendo o mal que não queria. Isso acontece com todos, inclusive os convertidos. A santificação não é instantânea, nem linear ascendente. Hetero e homo têm suas dificuldades.

Ultimato — A igreja tem falhado no trato da questão homossexual? Em que sentido? Seria por excesso de aceitação ou por excesso de legalismo?

Robinson — A Igreja tem falhado pelo silêncio no estudo dos temas da vida; sexualidade, relacionamentos, sentimentos, vida social, política etc., se concentrando no outro mundo, no futuro ou na subjetividade. Apresenta, muitas vezes, um projeto de bem morrer, mas não de bem viver. E no bem viver não vai além do individual e das microrrelações. O legalismo (com listas de “podes” e “não-podes”) e o moralismo (privilegiar os delitos sexuais em detrimento de outras áreas do comportamento) não ajudam muito.

Ultimato — Existe homofobia no Brasil? E no meio evangélico?

Uriel — A homossexualidade sempre levanta alguma estranheza, inclusive para a pessoa diretamente envolvida. Isso acontece não só no Brasil ou no meio evangélico, sendo ingênuo supor que tudo seja fruto apenas de preconceitos. Todas as sociedades, com variação de intensidade entre períodos históricos e diferentes enquadramentos culturais, tendem a uma postura crítica a respeito da questão. A caracterização da homofobia, contudo, deve ser reservada para a postura hostil e agressiva. Essa não é aquela encontrada na maioria das pessoas, com exceção de grupos ideológicos radicais, infinitamente minoritários.
Robinson — Existe antropofobia em todas as épocas e lugares, desde Caim e Abel. Temos um potencial de agressividade contra o outro por várias razões. Setenta por cento das uniões entre homossexuais são marcadas por violências. Nem todas as violências cometidas contra homossexuais o são em virtude da sua opção sexual ou estilo de vida, mas porque ele é um ser humano que, como qualquer outro, se mete ou se expõe a situações de risco de violência. Hoje, a partir do movimento gay, já se pode falar em uma heterofobia, agressão contra aquelas pessoas que não consideram o homossexualismo algo normal.

Ultimato — Se o projeto de lei que proíbe e pune a homofobia, em andamento na Câmara dos Deputados e no Senado, for aprovado, quais serão as verdadeiras implicações no que diz respeito às igrejas?

Uriel — As reivindicações por leis punitivas baseiam-se em supostos índices de crimes sofridos por homossexuais. Entretanto, quando se compara as taxas referentes à população em geral com as encontradas entre homossexuais, nota-se o contrário. A homossexualidade parece proteger as pessoas contra a violência, o que não é de se estranhar, pois a maioria dos homossexuais leva vida discreta e pacífica. A violência atinge aqueles que aparecem em situações de risco, como comentou um líder gay em recente episódio: “São homossexuais que estão mais envolvidos com a criminalidade, como prostituição e tráfico de drogas, ficando mais expostos à violência”. Na verdade, o que se pretende com a proposição constante de leis é consolidar um projeto de poder, desenvolvido em âmbito internacional, que encontra respaldo na cultura e na religiosidade reinantes em nossa época. Os cristãos têm o desafio de não responder no mesmo nível, e, sim, buscar o exemplo de Jesus Cristo.
Robinson — A aprovação do projeto de lei “Anti-Homofobia” atesta uma tendência de legislar sobre tudo e sobre todos, fere a Constituição, restringe a liberdade religiosa e leva a igreja ou à acomodação cúmplice e ao silêncio culposo ou à desobediência civil e ao martírio. Leis como essa demonstram a alienação política e a irresponsabilidade cívica de grande parte da igreja, cuja omissão termina por lhe atingir.
 
Fonte: Revista Ultimato/nº 310/fev-2008